
Arthur C. Clarke
(Entrevista)
Entrevista com Arthur C. Clarke na Revista,
Veja
de 13/11/96 por
Fabíola de Oliveira
O Futuro Está Aí
O escritor prevê uma nova era nas viagens espaciais e diz que logo será possível fazer turismo em Marte
Fabíola de Oliveira
Aos 78 anos, o inglês Arthur C. Clarke
é um dos mais populares autores de ficção científica deste século. Já
escreveu cerca de oitenta livros. O mais novo, 3001 - A Odisséia Final, chega
às livrarias no começo do ano. É uma seqüência do roteiro do filme 2001 -
Uma Odisséia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick, que o tornou
mundialmente famoso em 1968. Entre os cientistas, Clarke é respeitado por um
outro motivo. Em 1945, com apenas 28 anos, ele escreveu um artigo que é
considerado a base teórica para os modernos satélites de comunicação.
Clarke vive no Sri Lanka, antiga colônia
britânica ao sul da Índia, para onde se mudou há quarenta anos em busca de
sossego. Não conseguiu. Sua casa vive sitiada por turistas. O escritor paga
1000 dólares mensais só de fax recebidos e enviados para o mundo todo.
"Sou um recluso fracassado", diz. Hoje sofre de uma doença conhecida
como síndrome de pós-polio, que o obriga a andar em cadeira de rodas. Semanas
atrás, ao participar de uma conferência em Pequim, ele falou a VEJA:
Veja - Na época em que o senhor escreveu 2001 - Uma Odisséia no Espaço, parecia que na virada do século as viagens interplanetárias seriam uma rotina. O que deu errado com seu futuro?
Clarke - Em primeiro lugar, eu nunca
previ o futuro. Tudo o que fiz foi escrever ficção. Seis de minhas histórias
tratam do fim do mundo. Ainda bem que esse futuro não aconteceu, não é? As
viagens interplanetárias só não ocorreram até hoje por culpa de eventos como
a Guerra do Vietnã, o caso Watergate e tantas outras crises políticas e econômicas
que têm destruído o desejo americano de investir mais na exploração do espaço.
Além disso, o fim da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética,
embora tenha sido um acontecimento bom para a humanidade, derrubou um elemento
essencial na corrida ao espaço, que era a competição entre as duas potências.
É inacreditável que tenhamos chegado à Lua e abandonado esse projeto cinco
anos mais tarde.
Veja - A paz é ruim para o avanço da ciência e da tecnologia?
Clarke - Em alguns casos, sim. A I
Guerra Mundial tornou a aviação possível e abriu caminho para que em pouco
tempo ela se tornasse comercialmente viável. A II Guerra foi a porta de entrada
para a conquista espacial. Os foguetes V1 e V2, desenvolvidos pelos alemães
para o lançamento de bombas no início dos anos 40, antecederam os foguetes lançadores
até hoje utilizados para a colocação de satélites em órbita da Terra. A
Guerra Fria trouxe os satélites artificiais, as primeiras viagens de
astronautas e cosmonautas e a chegada do homem à Lua.
Veja - O senhor quer dizer que um novo grande conflito mundial seria bom para a retomada das viagens espaciais?
Clarke - Absolutamente não. Agora, é
preciso demonstrar que o espaço também pode trazer grandes retornos econômicos.
Vôos espaciais custam muito dinheiro Por essa razão, a humanidade precisa
ter um bom motivo para viajar para outros planetas. No passado, foi a competição
entre as potências. Hoje, pode ser puramente econômico. Atualmente, as
atividades que giram em torno dos satélites de aplicação comercial movimentam
cerca de 50 bilhões de dólares por ano. É por isso que o mercado de satélites
de uso civil cresce cada vez mais, enquanto o de satélites militares tende a
ser desativado. No momento em que se descobrir que aplicações práticas podem
resultar das viagens e pesquisas em outros planetas, a exploração espacial
acontecerá num piscar de olhos.
Veja - Como será a exploração comercial do espaço?
Clarke - As possibilidades são quase
infinitas. O problema por enquanto é o custo dos foguetes para a colocação de
naves fora do campo gravitacional da Terra. A boa notícia vem da Finlândia e
do Instituto Max Plank, da Alemanha, onde alguns cientistas conseguiram, quase
por acaso, realizar um experimento que criou um campo antigravitacional. Os fãs
da série Jornada nas Estrelas sabem que é essa a fonte de energia usada para
deslocar a nave Enterprise. Se isso for confirmado, poderemos estar na trilha de
um novo tipo de veículo que, em vez de usar combustível de propulsão, como os
foguetes atuais, vença a barreira gravitacional e se desprenda da Terra com
grande facilidade e a custos baixíssimos. Aí, tudo vai fluir automaticamente.
Veja - Que tipo de mudanças o senhor prevê?
Clarke - A principal é o advento do
turismo espacial, algo inimaginável aos custos atuais. Acredito que isso
acontecerá em algum momento do início do próximo século, e então teremos o
envolvimento do público em geral com o espaço. Nas viagens espaciais, os
foguetes lançadores representarão o mesmo papel que os balões tiveram no início
da aviação. Antigamente, especulava-se sobre a possibilidade de levar
passageiros em longas viagens com balões. Era comum no século passado as
revistas publicarem desenhos malucos de balões enormes carregando centenas de
pessoas, mas é claro que os aviões chegaram e acabaram com o sonho do
balonismo comercial. Da mesma forma, algum tipo de veículo espacial apropriado
para passageiros deverá surgir no início do século XXI, tornando as viagens
espaciais acessíveis a quase todo mundo. Marte vai ser um grande destino turístico
no próximo século.
Veja - Países em desenvolvimento, como o Brasil, devem investir em atividades espaciais ou deixar esse assunto para as potências mais ricas?
Clarke - Nações em desenvolvimento
podem tirar proveitos até maiores da tecnologia espacial do que os países
ricos. Investir em atividades espaciais não é só tentar ir à Lua ou a Marte.
É também produzir melhorias concretas na vida das pessoas aqui na Terra mesmo.
As aplicações espaciais são imprescindíveis nas áreas de comunicação,
monitoramento de recursos terrestres e previsões meteorológicas. Os satélites
já ajudaram a salvar milhares de pessoas em lugares como Bangladesh e outras
regiões da Ásia e da África que sofrem com fenômenos da natureza. No caso
das comunicações, sabemos que atualmente cinqüenta países com metade da
população do planeta ainda não tem acesso a uma linha de telefone. No mundo
de hoje é praticamente impossível o desenvolvimento cultural, educacional e
comercial sem um sistema eficiente de comunicações. Para tanto, é preciso ter
satélites.
Veja - Em agosto, cientistas da NASA anunciaram ter encontrado sinais de vida bacteriana num meteorito de Marte que caiu na Antártica. Qual sua opinião sobre essa descoberta?
Clarke - Estou levando essa pesquisa
muito a sério. Certamente não é uma prova decisiva da existência de vida em
Marte, mas é uma possibilidade bastante sugestiva. Se eu tivesse 1 dólar para
apostar, colocaria 75 centavos na mesa. Esse índice de probabilidade é mais do
que suficiente para que a descoberta seja investigada a fundo. Outra sugestão
interessante seria observar os meteoritos oriundos de Europa, uma das luas de Júpiter,
que é coberta por uma camada de gelo. A possibilidade de vida nos oceanos de
Europa é um dos temas dos meus três livros sobre odisséias no espaço. Fico
fascinado com as imagens maravilhosas desse satélite de Júpiter enviadas pelas
sondas espaciais Voyager e Galileu.
Veja - Seu próximo livro vai-se chamar 3001 - A Odisséia Final. Por que final?
Clarke - Porque eu não quero continuar
nesse assunto. A história se passa em Júpiter e suas luas. Lá encontramos
velhos amigos, como o HAL 9000, o computador que, na primeira odisséia, a de
2001, enlouquece e mata os tripulantes da nave espacial Discovery. Na nova história,
HAL aparece agora como um herói. Só não vou contar em que circunstâncias
para não estragar a surpresa de meus leitores.
Veja - Por que 3001 e não uma outra data qualquer?
Clarke - A idéia original era escrever
uma odisséia espacial para o ano 20001. O problema é que, mesmo no campo da
ficção científica, fica difícil imaginar como estará o mundo até lá. Mas
em 1000 anos acho que algumas coisas poderão ser reconhecidas. Eu me diverti
bastante escrevendo esse livro.
Veja - O senhor acha que a ciência um dia será capaz de resolver mistérios como a origem do universo e da vida?
Clarke - No passado havia questões que
pareciam jamais ter explicação e hoje estão bem respondidas pela ciência. Um
bom exemplo é a forma como a vida evoluiu na Terra. A ciência também consegue
explicar quase todos os fenômenos celestes e meteorológicos que antigamente
eram considerados mistérios. Ainda assim, acredito que existem questões para
as quais a ciência nunca terá respostas. Acho difícil, por exemplo, que um
cientista consiga explicar por que o universo está aqui e qual é a razão da
vida. Gosto muito de uma frase escrita por J.B.S. Haldane: "O universo não
é apenas mais estranho do que imaginamos; ele é mais estranho do que podemos
imaginar".
Veja - O senhor acredita em Deus?
Clarke - De um ponto de vista científico,
acreditar em Deus é tão inócuo quanto não acreditar. É questão puramente
de fé. O que posso dizer é que não rejeito por completo a idéia de Deus. Uma
vez eu disse a um representante do Papa que não acredito em Deus, mas sou muito
interessado Nela. Quem garante que Deus não seja uma entidade feminina?
Veja - para o senhor qual é o maior de todos os mistérios?
Clarke - Sem dúvida, os ETs. Não
consigo imaginar nada mais desafiador do que investigar a possibilidade de vida
extraterrestre. Se de fato nós estivermos sós, significa que não somos apenas
os herdeiros do universo. Somos também os seus únicos guardiões. Seria
inacreditável. Portanto, as duas possibilidades, a de estarmos sós ou não, são
igualmente fascinantes.
Veja - O senhor se preocupa muito com a própria morte?
Clarke - É óbvio que, aos 78 anos, eu
tenho pensado mais nesse assunto do que antes. Mas não é minha maior preocupação.
Só espero que eu não sofra muito quando a hora chegar. Estou mais preocupado
hoje com as pessoas e os animais que amo do que comigo mesmo.
Veja - Pelo que o senhor mais gostaria de ser lembrado?
Clarke - Fico muito feliz ao ver que
hoje as pessoas chamam a órbita estacionária dos satélites de "Órbita
Clarke", em razão de um artigo que escrevi em 1945. Para mim, já é mais
do que suficiente.
Veja - O artigo a que o senhor se refere enunciava a teoria básica dos atuais satélites de comunicação. O senhor se arrepende de nunca ter patenteado essa idéia, que poderia fazê-lo milionário?
Clarke - Gosto muito de uma frase
segundo a qual "uma patente é apenas uma licença para ser processado pela
Justiça". E eu não gostaria de passar a vida correndo atrás de
advogados. Além disso, se eu tivesse adquirido a patente, ela provavelmente já
estaria caduca no ano em que foi lançado o primeiro satélite de comunicação,
no início da década de 60, embora eu deva admitir que não imaginei que isto
ocorreria tão cedo.
Veja - Depois dos satélites de comunicação, qual será o próximo grande passo tecnológico da humanidade?
Clarke - Ele já está acontecendo. É o
telefone pessoal. O fim do telefone como um instrumento fixo vai provocar uma
das maiores revoluções na vida das pessoas neste século. Começou com o
celular, mas extrapolará todos os limites com a chegada do telefone que se
comunica diretamente com o satélite não importa em que lugar do planeta a
pessoa estiver.
Veja - Na semana passada, havia 60000 referências ao seu nome na Internet, a rede mundial dos computadores. Mas o senhor não gosta de divulgar seu endereço eletrônico. Por que?
Clarke - Eu tenho evitado entrar na
Internet como se foge de uma praga. É como você tentar beber toda a água das
Cataratas de Niágara. Diante de tantas informações e possibilidades, é
preciso ser seletivo e controlar a ansiedade.
Veja - Se o senhor tivesse nascido depois da chegada do homem à Lua e fosse hoje um jovem de vinte e poucos anos, o que estaria fazendo?
Clarke - Eu provavelmente estaria
ansioso para chegar a Marte. É uma viagem que, na minha idade, eu provavelmente
nunca farei. Se tivesse nascido em 1970, talvez tivesse uma chance.
Veja - Na sua opinião, quais são os grandes problemas da humanidade atualmente?
Clarke - O maior de todos é o excesso
de população. Já há pessoas demais para os recursos limitados do planeta. O
resultado é a poluição e a rápida degradação do meio ambiente. Há bilhões
de pessoas vivendo na miséria, sem acesso às mais elementares conquistas da ciência
e da tecnologia neste século. Acredito que a população ideal do planeta seja
inferior a 1 bilhão de pessoas. Outro problema que muito preocupa é o da educação.
Veja - O que está errado com a educação?
Clarke - No futuro, não muito distante,
haverá poucos empregos para pessoas altamente educadas e bem-preparadas. Não
haverá chances para todo mundo. A qualidade do ensino é precária no mundo
inteiro e isso terá graves conseqüências. Em especial, a educação científica
é deplorável. Em quase todo o mundo os professores ainda são mal remunerados
e a qualidade do ensino de ciências é muito deficiente. Para mim, este é um
dos piores problemas que enfrentamos atualmente, causador de muitas desgraças.
No início deste século, o escritor H.G. Wells dizia que "o futuro será
uma corrida entre a educação e a catástrofe". No momento, acho que
estamos perdendo a corrida.